PREFÁCIO
à 6ª edição

“A velha medicina (alopatia), a fim de dizer algo em geral, pressupõe no tratamento das doenças, ora uma (nunca existente) superabundância de sangue (plethora), ora uma substância morbífica e acridades, fazendo, portanto, escoar o sangue vital, esforçando-se, ora para expulsar a matéria morbífica imaginada, ora para desviá-la (através de vomitivos, laxantes, sialagogos, sudoríficos e diuréticos, vesicatórios, meios que favorecem a supuração, cautérios etc.) na suposição de poder enfraquecer e suavizar materialmente a doença, aumentando, contudo, os sofrimentos do doente, retirando, assim, do organismo, como também através de seus medicamentos, as forças e os humores vitais indispensáveis à cura. Ela agride o corpo com grande e, muitas vezes, amiúde, reiteradas doses de fortes medicamentos, cujos efeitos prolongados, não raro terríveis, ela desconhece e que ela, ao que parece, aplica-se em tornar desconhecidos, através de mistura de várias dessas substâncias desconhecidas em uma fórmula medicamentosa, provocando, assim, no corpo do doente, por meio de seu emprego prolongado, novas doenças medicamentosas, em parte ainda mais impossível de ser erradicadas. Ela procede também, onde pode, para obter a confiança do doente1, como meios que, pela oposição (contraria contrarriis) na verdade, suprimem e disfarçam (paliativos) os sofrimentos mórbidos por curto espaço de tempo, deixando, porém, atrás de si, as causas de tais sofrimentos (a própria doença) agravadas e pioradas. Ela considera erroneamente os males que se encontram nas partes externas do corpo como males puramente locais e independentes, imaginando tê-los curado quando os expulsou através de meios externos, de modo que o mal interno é forçado a irromper com mais gravidade em uma parte mais nobre e mais crítica. E, quando ela não sabe como lidar com a doença que se recusa a ceder ou que vai agravar-se, trata, ao menos, de alterá-la às cegas, por meio de um agente por ela chamado alterans, como, por exemplo, o calomelano, sublimado corrosivo que solapa a vida, e com outros meios violentos em grandes doses.”

Livro Organon
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